A maioria dos acidentes na cozinha com crianças acontece em segundos: uma caneca de chá puxada para baixo, uma pega de panela agarrada, a porta da máquina de lavar loiça usada como “degrau” ou uma pequena pilha engolida. O objetivo não é transformar a cozinha num local proibido, mas sim tornar os perigos difíceis de alcançar e os comportamentos seguros fáceis de repetir todos os dias. Este guia organiza as medidas por idade, porque o que funciona com um bebé que gatinha não é o mesmo que funciona com uma criança de quatro anos curiosa ou com uma de dez anos já confiante.
Nesta fase, o risco principal na cozinha está “em baixo”: tudo o que pode ser agarrado, levado à boca ou derrubado. Comece pelos armários e gavetas inferiores: mova todos os produtos de limpeza, pastilhas para a máquina, utensílios afiados, álcool, fósforos/isqueiros e pilhas tipo botão para um armário alto que possa ficar trancado. Se não puder ir “para cima”, vá para “trancado e consistente” — um único “armário de risco” é mais fácil de manter seguro do que vários locais meio protegidos.
Depois, crie uma rotina clara para o chão. Os bebés exploram com as mãos e com a boca, por isso trate o chão da cozinha como uma zona “sem peças pequenas”. Varra rapidamente após cozinhar, mantenha as taças dos animais fora das zonas de passagem e seja rigoroso com itens que caem: tomate-cereja, uvas, frutos secos, pipocas e qualquer coisa com embalagens. Verifique também por baixo dos rodapés e junto ao frigorífico, onde pequenos objetos se acumulam sem dar por isso.
O calor continua a ser um problema mesmo antes de a criança andar, porque os adultos transportam líquidos quentes e muitas vezes têm o bebé ao colo. Faça uma regra: não beber chá ou café quente enquanto segura um bebé e nunca deixar uma bebida quente numa borda baixa. Mantenha o cabo da chaleira e os cabos dos aparelhos recuados na bancada, para que nada fique pendurado. Se usa panela elétrica, fritadeira de ar quente ou panela de arroz, trate o cabo como um perigo: curto, recolhido e fora do alcance.
A esta idade, ainda não é “ensino” no sentido habitual, mas é possível ensinar padrões. Escolha um limite consistente (por exemplo, uma linha do tapete, a posição da cadeira alta ou um portão na porta) e coloque sempre o bebé atrás desse limite antes de fazer qualquer tarefa com calor, facas, vidro ou químicos. O hábito que está a criar é seu: pare, coloque o bebé em segurança e só depois cozinhe.
Use sempre as mesmas frases curtas: “Quente. Para trás.” “Afiado. Não.” “Espera.” Os bebés percebem o tom e a repetição muito antes de entenderem explicações. Quando esticam a mão, bloqueie com calma e redirecione sem transformar a situação num jogo. A consistência vale mais do que falar alto.
Pratique a “regra de uma mão”: se está com o bebé ao colo, tem uma mão livre, mas a atenção fica dividida. Faça disso um padrão: não verter água a ferver, não escorrer massa, não transportar tachos, nem abrir o forno com o bebé ao colo. É uma das formas mais simples de reduzir o risco de escaldões, porque elimina o momento mais comum de pressa.
Entre um e quatro anos, a criança passa de “andar aos tropeções” a trepar, e alcança mais alto do que a maioria dos adultos imagina. Barreiras físicas são essenciais: instale fechos de segurança em armários e gavetas inferiores onde guarda limpeza, utensílios afiados, medicamentos e álcool, e use um bloqueio para a porta do forno se o seu modelo aquecer muito por fora. Considere um protetor de placa se tiver comandos frontais ou se a criança costuma esticar o braço; se tiver indução, lembre-se de que o calor residual e as panelas quentes queimam na mesma, mesmo quando a zona está “desligada”.
Reorganize a bancada com intenção. Mantenha a chaleira, bebidas quentes e aparelhos pesados afastados da borda e vire sempre as pegas das panelas para dentro — não apenas quando a criança está a olhar. Evite toalhas de mesa e individuais longos que possam ser puxados. Se usa cadeira alta, coloque-a de forma a que a criança não consiga alcançar a placa, a chaleira ou o bloco de facas quando vira as costas por um instante.
Os itens pequenos tornam-se críticos nesta idade: pilhas tipo botão, ímanes de frigorífico e peças pequenas de temporizadores, comandos, brinquedos e luzes decorativas. Guarde pilhas suplentes num local trancado e verifique se os compartimentos de pilhas dos objetos ficam bem fechados. Isto não é um risco “raro”; é suficientemente frequente para existirem campanhas de segurança que reforçam a mensagem, porque o dano pode ser grave e rápido.
Mantenha apenas três regras e repita-as diariamente: “Pára na linha”, “Pede antes de tocar” e “Mãos fora quando está quente”. Use um sinal visual real, como fita no chão, um tapete pequeno ou a marca de um banco seguro. As crianças pequenas respondem melhor a “onde ficar” do que a avisos abstratos.
Ensine participação segura em vez de dizer “não” o tempo todo. Dê uma tarefa aprovada: lavar legumes numa tigela, mexer ingredientes frios, pôr guardanapos na mesa ou transportar objetos que não partem. A ideia é supervisão com estrutura: sentem-se incluídas, mas os perigos ficam controlados. Se só proibir, elas procuram momentos sem supervisão para imitar o que vêem.
Acrescente um guião simples para emergências. Se algo está quente: “Mãos no ar, recua, chama um adulto.” Se houver derrame: “Pára, não corras.” Em caso de queimaduras e escaldões, os adultos devem saber que arrefecer com água corrente fria ou tépida durante 20 minutos, o mais cedo possível, é uma medida essencial; e a criança deve aprender que o primeiro passo é avisar já, não esconder por medo de castigo.

A partir dos cinco anos, o objetivo muda: continua a bloquear os grandes riscos, mas também treina competências. Funciona melhor usar “níveis de permissão” do que confiança vaga. Por exemplo: Nível 1 — só lanches frios; Nível 2 — usar a torradeira com um adulto em casa; Nível 3 — aquecer comida no micro-ondas; Nível 4 — usar a placa para uma panela com supervisão. Escreva estes níveis e mantenha-os iguais entre cuidadores, para evitar que a criança teste o conjunto de regras mais permissivo.
Ajuste o espaço para prática real. Use primeiro as zonas traseiras da placa, mantenha as pegas viradas para dentro e guarde facas afiadas num local alto ou trancado até ensinar técnicas corretamente. Tenha um banco estável para lavar as mãos e preparar alimentos sob supervisão — subir para uma cadeira é um risco de queda, especialmente perto de superfícies quentes e quinas duras.
Ensine segurança alimentar a par da segurança com calor. Crianças desta idade já entendem por que o sumo de frango cru numa tábua não é “só sujidade” e por que reaquecer arroz exige cuidado. Mostre o básico: lavar as mãos com sabão, usar tábuas separadas para carne crua, limpar superfícies e manter alimentos frios refrigerados. Estes hábitos protegem agora e tornam a autonomia na adolescência muito mais segura.
Técnicas com faca aprendem-se, não se presumem. Comece com uma faca pequena e afiada que se ajuste à mão (facas rombas escorregam), uma tábua estável e a “garra” com os dedos. Ensine a transportar a faca apontada para baixo, a nunca a deixar escondida no lava-loiça e a pousá-la plana na bancada quando houver interrupções. Uma regra simples ajuda: se não está a cortar, a faca fica “estacionada”.
Segurança com calor também precisa de rotina. Ensine a verificar a pega antes de mover uma panela, a levantar tampas afastando o vapor do rosto (o vapor queima) e a manter mangas e panos longe da placa. Se usam micro-ondas, ensine a mexer e a respeitar o tempo de repouso, porque há zonas muito quentes que podem queimar. Peça que anunciem o que estão a fazer — “vou usar a placa agora” — para que possa acompanhar pelo som, sem ficar sempre por cima.
Por fim, ensine o que fazer quando algo corre mal. Para queimaduras ligeiras, a regra para adultos é arrefecer com água corrente fria durante 20 minutos e depois cobrir adequadamente; para queimaduras maiores, na face, ou se houver dúvida, procure aconselhamento médico rapidamente. A criança não precisa de toda a árvore de decisão, mas precisa de uma instrução inegociável: avisar um adulto de imediato, mesmo que ache que vai ser repreendida. Segurança vem antes de culpa.